Monday, April 19, 2010

Caruncho

Segundo noticiou a Agência Lusa no dia 15 de Abril, a Festa da Flor no Funchal, que custou a todos os portugueses 310 mil euros (o que daria para manter o Centro de Saúde de Valença em funcionamento durante muitos anos), é “o cartaz turístico mais importante da Madeira, depois do Fim do Ano, que este ano assinala a total recuperação da ilha depois da destruição do temporal de 20 de Fevereiro”.

Afinal, parece que não é bem assim e que a “total recuperação” ainda está a muitos milhões de euros de distância.

O Sócrates foi à dita Festa da Flor, usou um colar feito de flores, fez o jogging que costuma fazer no estrangeiro (o que é simbólico) e, como já lá estava, aproveitou e ofereceu ao seu recente mas grande amigo Jardim, um dos maiores tiranetes ao cimo da terra, a quantia de 740 milhões de euros. O Sócrates explicou as contas: diz ele que “vão ser precisos mil e oitenta milhões de euros para a reconstrução das zonas atingidas pelo temporal que atingiu no passado mês de Fevereiro a ilha da Madeira”. Anunciou ainda que 740 milhões de euros “competem” ao Governo central (NÓS) e 309 milhões ao Governo regional (NÓS TAMBÉM), seguradoras e donativos privados, uma operação em que os apoios à reconstrução vão estender-se até 2013. A estas verbas anunciadas hoje há ainda a acrescentar os 31 milhões de euros do Fundo de Solidariedade da União Europeia.”

Enquanto o Sócrates declamava estes milhões como quem bebe um copo de água ou compra uns sapatos Prada, o Soba interesseiro, atrás dele, não conseguia esconder o sorriso matreiro. Via-se que tinha dificuldade em conter as gargalhadas (que certamente soltou depois ao jantar com o Jaime Ramos).

É a velha história da cigarra e da formiga. Nós trabalhamos, e muito, e a Madeira estoira a massa. Aquela ilha tem um lado “cenário” e glamoroso (que inclui os muitos hotéis luxuosos, o porto e os navios de cruzeiro, os túneis, as festas da flor, os fogos de artifício, e tudo o mais para encher o olho ao turista) e um lado “vida real”, dos lacaios que servem a elite local (querem nomes ?) e os turistas que enriquecem ilimitadamente a mesma, pobres diabos que na sua maioria tem um nível de vida miserável e que vive em condições infra-humanas, nas traseiras do cenário, como se viu em Fevereiro.

Fruto destas duas realidades totalmente opostas, basta estar atento e passar uns dias na Madeira para ver como tudo o que há de mau em Portugal ali existe em grau superlativo: miséria, droga, fome, alcoolismo, prostituição feminina e masculina, pedofilia, jogo clandestino, censura, falta de liberdade de expressão, etc., etc. etc.

Ora, neste contexto REAL, a “destruição” (que causou um número de mortos que foi escondido pelo governo regional), até deu uma ajuda ao tal Soba que nos passa a vida a chular, enquanto simultaneamente tem a distinta lata de carpideirar que nunca lhe damos o suficiente: o “contenente” vai-lhe dar, de mão beijada, 740 milhões de euros (que já sabemos vai acabar por ser muito mais), para “recuperar” as traseiras do cenário, ou seja, as barracas em que os escravos viviam.

Tenho para mim que a Madeira seria auto-suficiente, se fosse gerida de forma transparente e democrática e se os muitos proveitos do turismo fossem bem divididos.

Como não o são, e graças à súbita e conveniente amizade entre os dois novos amigos do peito, cada um de nós vai oferecer quase cem euros à terra das festas da flor e dos fogos de artifício megalómanos e ainda vamos ser acusados por um ser embriagado, numa qualquer festa de chão da lagoa, de ser sovinas.

Quando vi as imagens das traseiras do cenário a ruir pensei logo: “ainda vou pagar por causa disto”. E vou mesmo.

Às vezes tenho vergonha, e pena, de ser português e de ser governado por esta gente sem quaisquer princípios. Não duvidem que esta gente não tem mesmo quaisquer princípios. E somos nós todos quem faz figura de parvos.

11 comments:

Maria - Made in Lisbon said...

Quando o Tio Alberto João apresentar a factura ao Continete acaba-se logo a amizade com Socrates. Tu me dirás.

:)

Noya said...

Quando o AJJ apresentar a factura já estará numa qualquer ilha/paraíso fiscal e o PM há muito estará fora da política.

Brutus said...

Maria: o problema é que não é uma factura. Vão ser várias, sem qualquer limite, e nunca se vai saber o total.

Noya: o AJJ não está já numa "ilha/paraíso fiscal" ?

Yashmeen said...

Vou citar isto. A sério o que vou.

Francis said...

é isso mesmo e pior...
uma toika a encher-se à grande a à madeirense e o povo a secar...mas eles gostam, portanto...revolta-me pagar aquela besta...muito.

e as seguradoras a rirem-se.

loirices said...

...o pior francis, é que madeiras e políticos sem coluna vertebral estão espalhados pelo mundo TODO. Só vejo esperança num outro planeta qualquer.

Brutus said...

Não resisto a falar de futebol: faltam 3 jornadas, ou seja, 9 pontos. O sporting está a 7 pontos do guimarães.
Se fosse o Benfica a, antes o campeonato acabar, contratar o treinador da equipa que está imediatamente a seguir e, pelo menos matematicamente, com hipótese de lhe roubar o lugar, havia de ser o bom e o bonito.
Imagine-se o que seria se o Benfica hoje contratasse o Domingos para a próxima época. O que é que diriam as púdicas de serviço ?
Chama-se "ética". Ou falta da mesma.

Nanny said...

É o costume... passamos a vida a pagar!

:S

Kikas said...

Atão e que tal uma petição para dar a indepedência à Madeira? Será que o Alberto vivia sem os nossos milhões?
Não, não é como o anúncio da ZON que "Viver vivia mas não era a mesma coisa".... para ele, que já tinha onde ir mamar!
Mas para nós, continentais, era mesmo "Viver, viviamos e buéda bem porque seria MESMO outra coisa"!
Palhaço!

Pedro Coimbra said...

Eu ainda não paguei.
Mando a massa à ordem de quem?
E é em numérário, ou pode se cheque?
E tem que ser em euros, ou pode ser em patacas?
Agradecia ser esclarecido.
Antecipadamente grato,
Um abraço rapaziada

Pedro Coimbra said...

Eu ainda não paguei.
Mando a massa à ordem de quem?
E é em numérário, ou pode se cheque?
E tem que ser em euros, ou pode ser em patacas?
Agradecia ser esclarecido.
Antecipadamente grato,
Um abraço rapaziada