Wednesday, April 21, 2010

É impossível acabar com a corrupção, mas eu já ficava contente se houvesse menos

Devido à inexistência de pressão urbanística na ocasião e a uma terrível falta de visão de futuro, as nossas autoridades sempre foram completamente desastradas no que respeita à gestão de algumas zonas “filet mignon” de Lisboa, por exemplo nas áreas ribeirinhas e adjacentes.

Por isso, temos ou tivemos quartéis instalados em zonas “topo de gama” (em cima do Tejo, em Algés, na Artilharia 1, nas Janelas Verdes, no Carmo, junto à AA Aguiar, etc.), prisões no centro da cidade ou em sítios com vistas fabulosas (no topo do Parque Eduardo VII, Caxias, Trafaria, etc.) e outros equipamentos em locais impensáveis (silos para cereais em cima do rio, fábrica da Lusalite entre o Estádio Nacional e o rio, fábrica de açúcar, etc.).

No que respeita concretamente à zona ribeirinha, sempre pensei que devia ser de todos nós, ser inteiramente (ou o máximo possível) pública, pelo que ninguém teria o direito de se “apropriar” de um único metro quadrado. Devia ter muitos jardins, restaurantes, cafés, discotecas, marinas, passeios “marítimos” e, sobretudo, muitos equipamentos desportivos (pistas para bicicletas, ginásios indoor e outdoor, relvados para peladinhas, zonas para patinagem, pistas para skateparks, redes para volei, paredes para escaladas, o que se lembrarem). Seria uma espécie de “jardim comum” e zona de lazer, de todas as muitas casas de Lisboa que não têm jardim, para as pessoas passearem, correrem, pescarem, namorarem, lerem, gozarem a vida ...

E, por favor, não me falem nos inconvenientes da linha do comboio e na ideia de enterrar a mesma: acho que a Linha do Cascais deve ser uma das linhas de comboio com um dos percursos mais bonitos do mundo e com imensa qualidade, e que nós temos imensa sorte em ser nossa. Às vezes, com o uso frequente, podemos deixar de dar valor, mas basta ver o ar de satisfação dos turistas para sentirmos orgulho. A Linha de comboio de Cascais devia ser património mundial.

Podia ainda falar sobre a outra margem do rio – um mistério ainda maior, porque tem a melhor vista e, ainda assim, continua a ser um conjunto de barracas e ruínas – mas fica para outra ocasião.

Voltando ao princípio, revolta-me constatar que ainda hoje, não pelas apontadas razões, mas p€la outra que sab€mos, os atentados – cada vez piores – continuam. Só quatro exemplos:

  1. Começou com um hotel que surgiu subitamente em Belém, quase dentro do Tejo (Altis). Ninguém percebe como, mas ele lá está, muita gente deve ter enriquecido;
  2. A nova “Cidade Judiciária” na Expo. É só mais uma negociata, muito haveria a dizer. Um luxo faraónico, uns edifícios que deviam ser austeros, práticos e económicos e que são precisamente o oposto de tudo isto (nem sequer foram construídos para serem tribunais). Os tribunais deviam ser construídos, de raiz, mais para o interior, em zonas com solos mais baratos;
  3. O edifício da Fundação Champalimaud em Algés. Um mistério completo. De novo um edifício que devia ser um exemplo de probidade no dispêndio de fundos, comedimento, modéstia, anti-novo-riquismo, anti-show-off, é o contrário de tudo isso. É impossível conceber o que é que foi preciso fazer e pagar por baixo da mesa para conseguir construir aquele monstro naquele terreno, QUE ERA NOSSO. Porquê ali ? E, para além disso, arrepia-me só pensar na confusão do transito quando aquilo estiver a trabalhar em pleno;
  4. Por último, o exemplo outra vez actual (e que me levou a escrever isto): as paredes de contentores em Alcântara. Fala-se agora numa acção, mas, no meio de tantas centenas ou milhares de milhões, hão-de se arranjar dois ou três lá numa gaveta para resolver o assunto. Não sou eu que digo isto, claro.

No dia 4 de Março de 2001 caiu, de repente, uma velha ponte que existia em Entre-os-Rios e, de repente, morreram 59 pessoas que tinham o azar de morar em Portugal. É óbvio que ninguém teve culpa.

Nesse mesmo dia, houve um tipo que pensou: “Foda-se, a vida é mesmo curta e pode acabar mais cedo do que se pensa”. E, então, ali à chuva, despediu-se imediatamente do seu emprego mal pago e tomou uma decisão: “Jorge, vais gozar bem a vida e enriquecer rapidamente, seja lá como for”.

E nós é que nos fodemos.

9 comments:

Francis said...

E o Jorginho engordou, engordou...e quem se meter com ele, leva.

Brutus said...

Aqui na Loja tb temos a nossa corrupçãozinha. Obrigado por teres comentado, Francis. Haja alguém que dá apoio. Uso o NIB do costume ?

Francis said...

vá lá a ver isso...desta vez é para a off-shore. dá-me jeito por causa de uma casinha que quero fazer além na costa alentejana e tenho que distribuir lá umas massas...

Brutus said...

Se quiseres mesmo na areia é um pouco mais caro, mas tb se arranja. Desde que os tipos construíram ali o Altis que eu acredito que TUDO, mas mesmo TUDO, é possível neste país.

Francis said...

olha que o caso do Altis não me chateia, acho que fica ali bem.

Brutus said...

Not me. Um dia destes vendo o carro para ir lá almoçar.

Francis said...

é assim tão caro ?

Brutus said...

Sei lá, aquilo tem aspecto de ser só para malta finória, nunca lá tentei entrar (provavelmente não me deixam).

O rio devia ser do povo, mas os ricos e poderosos constroem onde querem e lhes apetece.

Não sei se sabes quem é o dono. Devias detestar, penso eu de que ...

Pulha Garcia said...

Ainda há dias ouvi falar do Jorge. Era a propósito dos escandalosos prémios a administradores. Agora quem se mete com a Mota Engil, leva.