Monday, October 24, 2011

Dicionário do português e seu hábitos - #1

Gratuito O que não comporta despesas na aquisição de algo.

Exemplo: Lisboa, Praça do Rossio, nove da manhã. Chove torrencialmente. Manuel está na fila para o autocarro, está atrasado para o emprego, não tem guarda-chuva e na fila para o autocarro existem 21 pessoas para entrar antes dele. Num olhar inocente rumo ao horizonte, vislumbra uma banca onde se lê a frase: “Amostras gratuitas”. Manuel larga tudo: a fila, esquece-se do atraso e decide ensopar a roupa do corpo num sinuoso bailado para se desviar dos automóveis tudo para alcançar a banca onde estão a dar algo.

- Bom dia! Então está a oferecer o quê?
- Bom dia senhor! São amostras de Hepatite B, deseja experimentar?
- Hum... Mas isso é mesmo de borla?
- Completamente! A primeira amostra é gratuita, caso queira repetir tem aqui um cartão com o nosso contacto para requisitar a segunda remessa!
- E como é que isso se usa?
- Abre a saqueta, mistura energicamente, num copo de água e bebe em jejum. Estamos a lançar uma nova gama de produtos no mercado e de eficiência cientificamente comprovada!

Não se pense que o português é leviano. Longe disso! O gratuito abre uma importante porta: a do destaque social.

Imaginem só o sucesso que não será Manuel chegado ao seu emprego afirmar com empáfia: “Cambada, hoje ganhei Hepatite B. E de borla!”. Em seu redor há um misto de respeito e inveja. O colega que mais compete com Manuel, mentalmente, pragueja: “Sacana! E eu tive de pagar duas pêgas para conseguir ter uma Hepatite B! Não tenho sorte nenhuma! Hás-de curar-te só para aprenderes a não ser gabarolas!”. Porém surge também a admiração, por parte do colega que é amigo de infância de Manuel: “Este gajo consegue tudo o que quer! Que sortudo! Sempre disse que queria seguir as pisadas do tio que morreu de Hepatite B. Que perseverança nos objectivos, que classe! Sinto-me honrado por ser seu amigo. Que será o jantar hoje?”.

Claro que Manuel, como qualquer outro sujeito luso, beneficiado por uma borla vai ser explorado. Vão começar conversas na hora do café mais amenas e repletas de elogios que têm apenas um objectivo: saber onde Manuel conseguiu aquela amostra gratuita, e arranjarem uma para eles também.

Conclusão: o português pode não ter habilidade para muita coisa, mas em havendo uma borla até finge conhecer um morto só para almoçar à borla no funeral.

7 comments:

Hugo Nofx said...

Muito curioso, Maria!
beijo.

Maria Cachucha said...

Curiosos são os nossos hábitos! Se é de borla não se nega fogo.

beijo

P.M.C. said...

E ainda é cabaz de dizer (como eu conheço) qdo os confrontamos com isso: "então, há que aproveitar as coisas boas da vida!".

P.M.C. said...

Correcção: cabaz nao, capaz.

Maria Cachucha said...

nem mais. E da mesma forma que muitos acham que as pessoas bonitas são moralmente boas (ou pelo menos acreditava-se), assim também se acha que a borla é necessariamente boa!

Boop said...

Ai que eu fico confusa com a tua difusão de identidade!
:)

Qt às borlas... é vê-los em fila a receber seja o que for... para o que serve? Não sei mas foi dado!

Maria Cachucha said...

Até eu fico! Caraças, ando indecisa quanto ao nome a usar no blog! :)

Claro, custou tempo mas dinheiro? Zero! E isso é que interessa!