Sunday, February 19, 2012

O " irresistível apelo da neve"

Todos nós temos amigos e conhecidos que, mais ou menos por esta altura do ano, não dispensam a "semana na neve". "Quem me tira a semaninha na neve tira-me tudo", ouço desabafar amiúde. É algo a que chamo o "irresistível apelo da neve".

Fazem as malas e conduzem, ou voam, consoante as carteiras (ou os empréstimos), rumo a um sítio qualquer com neve e frio.

Uma vez chegados à "instância" de inverno, os seus dias são mais ou menos assim (já todos ouvimos relatos): acordam cedo, vestem toneladas de roupa, e toca a descer uma "pista" (nome técnico e com cores) em três minutos. Vão para a bicha para a maquineta que os leva para cima outra vez. Meia hora depois (bicha acrescida da lenta subida), descem de novo, nos tais 180 segundos. Meia hora depois descem outra vez. E por aí fora. Descem para depois subir. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem.

Dificilmente concebo algo mais divertido e estimulante.

Deitam-se cedinho e toca a dormir porque têm que passar o dia seguinte a descer para depois subir. Acordam cedinho e lá vão eles descer e subir. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem. Descem e sobem.

Passam uma semana a descer descidas em três minutos e a subir subidas em trinta minutos, sempre com um frio do catano, só para não dizer palavras acabadas em "alho".

A "neve". MEUS CAROS, é isto E NADA MAIS DO QUE ISTO.

Confesso que este descer e subir contínuo é algo cuja lógica e inteligência, se é que a tem, nunca consegui descortinar. Escapa-se-me.

Nós somos meio-africanos, dados a calores e ao clima ameno em que nascemos. Temos muito mar e, por exemplo, ski aquático aqui ao lado, mas este pessoal quer é ski na neve, longe e com frio e nada de ski aquático, tão próximo aqui nas centenas de quilómetros da nossa costa.

Nunca fizeram ski aquático no verão mas são viciados em ski na neve no inverno, são feitios.

Será o ski na neve uma actividade que eles praticam naturalmente desde criancinhas, tal como se tivessem nascido e medrado na Lapónia ou nos Alpes, que os leva a sentir um apelo irresistível para voltar às aventuras da meninice e matar as saudades da infância enregelada ? Não me parece. Não vejo muitas pistas de ski na Avenida de Roma, na Lapa, em Campo de Ourique ou no Estoril. Não foi algo com que estes tugas cresceram ou com que viveram ao lado. Não me consta que existam campeões de ski provindos da tugolandia.

Mas então o que levará tantos tugas de gema, habituados ao calor e à praia desde que nasceram, a rumar ao frio de rachar para tamanho padecimento literalmente contra-natura ?

Depois de muito cogitar sobre o tema, ao longo de vários anos de aturado estudo, só descobri um motivo: a malta vai "à neve" só mesmo para dizerem que foram "à neve". As idas "à neve" têm que ser divulgadas tanto quanto possível, faz parte. É finório. É chique. Cagança mesmo.

Gostam tanto daquilo como gostam da praia de Algés ou da Feira do Relógio, mas aparecer bronzeado no trabalho em Fevereiro, utilizar os suportes (da marca certa) para skis no tejadilho da carrinha Audi durante o ano inteiro, ter um autocolante "Ski Baquera" no vidro do carro ou, top dos tops, andar de muletas por causa de um acidente a fazer ski, é um deleite imenso para essas pessoas, acham que lhes dá um status filho da mãe, mesmo que lhes custe à brava pagar as prestações da viagem (sobretudo se for a somar às da Audi A6 e às dos suportes para os skis para o show off). Sei que há gente que passa fome para ir uma semana no Inverno descer e subir na "neve". Não consigo entender.

Entrar numa Decathlon em Sintra ou em Alfragide e ver corredores enormes cheios de artefactos para ski, como se estivéssemos em plena Andorra, é algo que ultrapassa a minha capacidade de entendimento.

A "neve" é um típico tique terceiro-mundista armadófino, que, acho que já deu para entender, me irrita um pouco.

Sou um tuga típico. Gosto de calor, de bicicletas, de andar descalço, de jogging em t-shirt e calções mesmo de inverno e, em geral, de tudo o que tem a ver com tirar partido do nosso mar quente e do nosso clima fantástico.

E, sobretudo, acho que as melhores coisas da vida são de borla e implicam pouca roupa, quanto menos melhor, para não dizer nenhuma mesmo.