Thursday, June 07, 2012

Portugal no seu melhor: O "Melhor Bolo de Chocolate do Mundo" não paga ordenados

A coisa pareceu simples: um fulano qualquer fez uns bolos de chocolate, lembrou-se de alardear – imodesta e pateticamente – que é o "Melhor Bolo de Chocolate do Mundo", gastou fortunas em publicidade encapotada (Time Out's e outros artigos pagos), a coisa pegou (o pessoal gosta de gente modesta), e agora farta-se de vender bolos, porque, putativamente, são "os melhores do mundo".

Ora, segundo o "I" de hoje, o Sr. Carlos Braz Lopes vende milhares destes bolos mas não paga ordenados. "atribuindo o problema às dificuldades que a empresa estará a ter em cobrar dívidas" (SIC).

Esta é boa Carlos, e não lembrava ao Diabo. Explica-me cá uma coisa: uma vez que vendes os bolos nos balcões da tuas lojas, não recebes logo a massa dos compradores ? se eu for lá à tua lojeca comprar uns bolos tu fazes-me fiado, é ? Quando lá for na próxima vez vou pedir para ficar "a dever", vale ?

Guess what: no final do dia, quando fechares a loja, vais à caixa registadora. De seguida, abre a gavetinha. Olhas lá para dentro. O que vês ? isso: notas e moedas, dinheirinho, massa, guito, pilim. É o produto da venda dos milhares dos (caros) bolos que vendes todos os dias (e é todo, porque não aceitas multibanco). Pegas nesse dinheirinho, tiras da caixa, vais e pagas ao pessoal. Não é fácil, Carlos ?

Arranja outra, amigo, essa de não te pagarem não pega.

Receio que estejamos a chegar a um ponto em que os nossos "empresários" acham que é normal não pagar ordenados e que podem sempre dizer que a culpa "é da crise".

Este Carlos é um verdadeiro português no seu melhor e não é certamente "o melhor empresário do mundo". Os seus empregados - que vendem bolos mas passam fome - que o digam. Já imaginaram o que é passar o dia a vender bolos ao preço do ouro e não receber dinheiro para comprar comida ?

8 comments:

C said...

concordo com tudo o que diz... menos na parte do "Pegas nesse dinheirinho, tiras da caixa, vais e pagas ao pessoal. Não é fácil, Carlos ?". Não é bem assim, com esse dinheirinho pagam-se matérias primas, água e energia, rendas, impostos e contribuições(pec, irc, seg social, retenções na fonte...), seguros, medicina no trabalho, empresa de haccp, manutenção e arranjos de equipamentos, empréstimos ao banco, contabilista... enfim, o essencial para a máquina poder continuar a girar e rapidamente se pagarem os vencimentos em falta. Não é fácil, acredite. sou empresária, com uma pequena cafetaria e não imagina as contas que tenho de fazer para poder atravessar esta triste realidade em que o país se tornou e manter os postos de trabalho. Como é sabido, o sector da restauração levou um tremendo abalo: os custos de energia aumentaram, as matérias primas aumentaram, o poder de compra dos clientes desceu e a subida do IVA apenas prejudicou os empresários, não por não querermos pagar IVA, mas sim porque compramos as matérias a 6 e 13% e vendemos a 23, ao contrario da maior parte dos sectores, o que nos reduz imenso a margem de lucro, cada vez mais reduzida.
Uma coisa é certa, o staff é o motor da empresa, e também têm as suas obrigações financeiras a cumprir - os ordenados devem estar sempre e obrigatoriamente em primeiro lugar, concordo plenamente com o último parágrafo.

Francis said...

C. se não é bem assim, fecha a porta. se não é bem assim sobe o PVP. se não é bem assim, fecha a porta. se não é competitivo, fecha a porta. se tem obrigações para pagar e não paga, fecha a porta.
para que conste, somos todos empresários aqui. não dá ? fecha a porta.

Michael Grasses said...

C: é simples - concordo com tudo o que diz e conheço bem a realidade que refere.
A minha questão tem unicamente a ver com a desculpa, que é claramente fajuta: "dificuldade em cobrar dívidas".
Você tem dificuldade em cobrar dívidas ou recebe a pronto ?

E, já agora, tenho as maiores reservas em relação ao "problema" com o IVA. Quando entro numa cafetaria e como um bolo, tomo um café, seja o que for, não há recibo nem factura para ninguém. É quase tudo "por fora", mesmo em restaurantes. Se na sua cafetaria não souber como fugir aos impostos, e paga IVA sobre todas as bicas e imperiais que vende, desculpe mas anda a dormir ...

Francis said...

estou assustado com este teu lado pussy...
isto é momentaneo, pois é ?

C said...

Francis: fecho a porta?! e o investimento? os compromissos assumidos? o staff? o empenho depositado? não é bem assim...

Michael: ando a dormir profundamente

Michael Grasses said...

Francis: é obviamente momentâneo e o tratamento por "você" sou só eu a tentar imitar o Reinaldo com o Cavaco.

C: jura que se eu for ao teu café comer um prato de caracóis e beber uma imperial vais entregar ao Estado o IVA que me cobras ... engana-me que eu gosto ...

Em resumo: eu acho (e sei de vários casos) que o aumento do IVA foi um motivo para o pessoal da restauração aumentar os preços, continuando a fugir ao fisco ... ou seja, foi algo bom e não algo mau.
porque carga de água é que, quando vou a um restaurante e pago 10, 20 ou 100 euros tenho que pedir - literalmente - uma factura em vez de ma colocarem automaticamente à frente ? para mim é tão misterioso como era o 3º segredo de Fátima ...

C said...

Michael, juro e juro mesmo que nunca fugi ao fisco, acho até ofensiva a acusação! tenho o meu negócio há tres anos, e nunca mas nunca ficou um café por registar! não deixei o meu confortável trabalho por conta doutrem para vir enganar o estado e deixar que os meus valores se dissolvessem, tenho carácter. Com o aumento do IVA não aumentei os preços, à excepção do café, que subi 5cts, caso contrário arriscaria a perder a clientela, não me posso dar a esse luxo. Não precisei de alterar o meu programa informático, sempre foi certificado, em que todos os talões servem de factura, e as anulações ficam registadas. Além disso, os meus funcionários declaram o que recebem, não há nada por fora. Desvantagem: ando sempre a fazer contas, e a minha luta é diária e não consigo tirar um vencimento decente mais do que 6 meses por ano. Vantagem: tenho a consciencia limpa, e posso afirmar ser intocável no que diz respeito a trafulhices, o que nos tempos que correm é priceless. Não foi para isso que abri o meu negócio, acredito que o que damos à vida a vida devolve - se trabalharmos seremos recompensados.
Acredite se quiser...

Michael Grasses said...

Se o diz, acredito, mas sabe que é a excepção, certo ?

E não a acusei de nada: na minha óptica, fugir aos impostos não é uma acusação, mas um dever.